O que diria hoje o mestre Nelson Jahr Garcia (Professor discípulo)

um Professor discípulo


Meus colegas professores estão neste espaço comentando o mundo com o covid e os efeitos da quarentena. Resolvi imaginar agora o que escreveria aqui uma das pessoas que mais admirei como acadêmico e como ser humano, tempos atrás.


Sei que poderei exagerar. A neurociência afirma que somos traídos pelas lembranças, pois a memória protege nossos valores afetivos. Então assumo minha parcialidade, tranquilo, pois este texto também quer ser uma homenagem anônima a quem me ensinou muito.


Por pura sorte fui dar aulas na faculdade em que o professor Garcia era diretor acadêmico. Algum colega me indicou a ele, que me chamou para conversar. Tenho aqui um abacaxi a descascar, disse, e talvez você me ajude; se o fizer, tentarei retribuir.


Então me explicou que um professor, que havia saído de lá por razões pessoais, lecionava sua disciplina em várias classes, o que incluía duas aulas semanais para uma das piores classe da faculdade. Nenhum dos outros professores aceitou substituí-lo, sabendo a tarefa espinhosa. Então, concluiu Garcia, ele precisava de uma vítima, para ontem, e eu havia sido indicado.


Que franqueza interessante, pensei eu, e que desafio. Mas as circunstâncias me fizeram aceitar e, certamente por isso, ele deve ter resolvido me tratar especialmente bem. Aos poucos tornou-se meu tutor e coach, coisa valiosa para mim, professor novato.


Ao aprovar meu trabalho lá, logo ele se propôs a me “desalienar”, tirando de minha cabeça um leve pendor pela direita política, coisa que eu talvez tivesse trazido por ter sido aluno do professor Mauro Brandão Lopes, na Escola de Sociologia e Política. Admirável intelectual, ele defendia que o capitalismo abria mais espaços ao talento do que o socialismo. Isso coincidia com minha admiração pela meritocracia, antes de a conhecer bem, trabalhando no mercado.


Garcia não fazia proselitismo, mas acabava me convencendo pelos seus exemplos. Eu, após acompanhar sua gestão humanista por algum tempo, um dia perguntei se sua posição de esquerda vinha de ele ter sido professor da USP, local acusado de ser “ninho de comunistas”.


Aí ele, sem paixão, me explicou como a USP ganhara aquela fama, merecida, devido a uma guerra entre o governador Serra e os professores de lá. Autoritário e truculento, Serra, apesar de também ser de esquerda, não tolerou as reivindicações salarias dos professores, que até chegaram à greve, e passou a retaliar. Chegou até a cortar subsídios de descontos em livrarias. Resultado: os professores da USP caíram nos braços do sindicatos, sempre de esquerda.


Mas a posição política de Garcia vinha do idealismo. Quando do advento da internet, ele abriu de graça os arquivos dos livros que havia escrito, pois, explicou, só havia estudado no ensino público, e queria retribuir à sociedade o que havia recebido.


Suas críticas ao capitalismo eram filosóficas, e eu aos poucos passei a entende-las. Acabei endossando-as em grande parte, até porque, como marqueteiro, eu havia conhecido os bastidores do mercado, de poucos escrúpulos e quase nada de ética.


Lembro hoje que Garcia alimentava a convicção de que bons professores criavam cidadãos mais conscientes, e isso se traduzia em uma sociedade melhor. Seu grande sonho de diretor acadêmico era tornar a faculdade uma ilha de excelência no ensino do país. 


Pois bem, hoje, com a pandemia, vejo neste espaço professores falando em solidariedade e em preocupações com o futuro cada vez mais incerto. Porém vejo na mídia o incrível sucesso de vendas no varejo que começa a reabrir. Milhares ainda morrem na pandemia, enquanto outros estão procurando as lojas de moda: aconteceu na China, há um mês, e hoje, 15 de maio, em Paris. Filas nas portas da Zara e da Vitton, com gente que, ao ser entrevistada, diz que está ali só para fazer umas comprinhas.


Esse exemplo de consumismo me fez lembrar Richard Sennet, o pensador de esquerda norte-americano, autor de “A Corrosão do Caráter”, livro que denunciou, relatando casos reais, a deformação do homem dentro da competição pelo lucro, base do sucesso do capitalismo.


Pois hoje vemos que também o comportamento dos consumidores foi afetado pelas práticas do sistema, criando uma sociedade viciada em compras. Uma segunda corrosão do caráter está em curso: o que diria sobre isso aquele meu admirado educador?


Lembrando sua atuação no dia-a-dia da faculdade, estou convicto de que ele diria: professores não são pagos para transmitir conhecimento, que está na web, mas orientar e mostrar caminhos para os jovens construírem um mundo melhor. Mais solidário, menos monetarista, mais sustentável, menos antropocêntrico. Isso fará melhor nosso futuro pós-covid.


Para mim, neste momento de aflição coletiva, esta é a missão que os bons professores precisam assumir: mostrar caminhos para se fazer a coisa certa.


“Professor discípulo”, 15/05/2020

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