Quando números ganham nomes. (Amanda Inke)

Nota: apesar da Amanda Inke não ser professora, consideramos seu texto sobre a quarentena tão inspirado que resolvemos o incluir nesta página.


Amanda Inke

Neste momento de pandemia, não estamos no mesmo barco, mas sim na mesma tempestade.

Essa colocação inspirada do fotógrafo Rodrigo Balbueno me deixou pensativa. E então concordei, lembrando que no meio das ondas da atual crise, alguns estão em canoas, outros em iates.  Alguns tem comida a bordo, outros não. Há barcos com muitas pessoas dentro, em outros tem uma pessoa sozinha.


Mas outra coisa que tenho pensado muito também é que, enquanto 2% de mortalidade é uma mortalidade baixa (ou seja lá o percentual que for), isso parece pouco. Desde que neste percentual não esteja o meu pai, a minha mãe, os meus avós, os meus tios, ou qualquer outra pessoa de quem eu goste muito. Porque enquanto a desgraça acontece longe de mim, enquanto ela é apenas um número, tudo bem.


Mas quando atinge alguém do meu lado, a coisa muda, né?

Eu, que também sou fotógrafa, quero voltar a trabalhar?

Sim, eu preciso. Mas acho que ainda não é a hora, ainda estaremos arriscando muitas vidas se o fizermos antes do tempo. E se uma dessas vidas fosse a da minha mãe (ou de qualquer outra pessoa que amo), eu ficaria em casa mais seis meses, um ano, se precisasse.


Se tiver alguma dúvida sobre isso, pergunte a quem perdeu alguém da família para essa doença maldita. Pergunte se essa pessoa não preferia ter ficado em casa mais um tempo (por mais difícil que fosse) para ter seu parente aqui ainda.


Então, sim, estamos em barcos separados, mas a tempestade é a mesma. E pode atingir a canoa ou o iate. E eu acredito que, se cada um fizer o que estiver ao seu alcance, se cada um fizer o seu melhor, a tempestade vai embora mais rápido. Para todos.

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